Parasitas geneticamente modificados podem combater doenças
Pesquisa mostra parasitas geneticamente editados produzindo compostos úteis contra doenças em testes com hamsters

Parasitas modificados geneticamente podem se tornar ferramentas promissoras para tratamentos médicos no futuro. Cientistas conseguiram fazer com que ancilóstomos produzissem substâncias terapêuticas dentro do organismo de hamsters.
A abordagem utiliza a tecnologia de edição genética CRISPR para transformar esses vermes em pequenas “biofábricas vivas”, capazes de fabricar e liberar anticorpos e outros compostos com potencial para auxiliar no tratamento de diferentes doenças, segundo informações divulgadas pela Live Science.

Vermes viraram “fábricas” de anticorpos
Os ancilóstomos já despertavam o interesse da comunidade científica devido às substâncias que liberam naturalmente no organismo. Estudos anteriores indicaram que esse conjunto de compostos pode ter efeitos benéficos no tratamento de condições como síndrome metabólica, Type 2 Diabetes e Celiac Disease.
A pesquisa mais recente avançou além dessa proposta. Em vez de utilizar apenas as moléculas produzidas naturalmente pelos parasitas, os cientistas introduziram um novo gene diretamente no material genético dos ancilóstomos, permitindo que eles passassem a produzir substâncias terapêuticas específicas dentro do organismo hospedeiro.
´´Nós perguntamos: “E se pudéssemos adicionar mais uma molécula às cerca de 1.000 substâncias que o verme já secreta, algo terapeuticamente útil para as pessoas?” Este estudo mostra que isso não é apenas um conceito. Funciona.´´
Makedonka Mitreva, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis, e coautora do estudo, em nota
Utilizando a técnica de edição genética CRISPR, os pesquisadores inseriram no genoma do ancilóstomo um gene responsável pela produção de um anticorpo capaz de combater a Tetrodotoxin, uma toxina altamente perigosa presente em peixes como o Pufferfish.

Sangue dos hamsters reagiu ao veneno
Os pesquisadores infectaram hamsters com aproximadamente 80 a 100 larvas geneticamente modificadas. Após atingirem a fase adulta, os ancilóstomos começaram a produzir o anticorpo programado e a liberar essa substância diretamente na corrente sanguínea dos animais, demonstrando a capacidade dos parasitas de atuar como pequenas plataformas biológicas para a produção contínua de compostos terapêuticos.
Em laboratório, o sangue coletado dos hamsters conseguiu neutralizar parcialmente a tetrodotoxina.
Para os pesquisadores, a técnica também pode abrir caminho para outros tratamentos no futuro.
- anticorpos contra inflamações intestinais
- medicamentos peptídicos
- compostos ligados ao tratamento metabólico
- pequenas doses de alérgenos para dessensibilização
Alex Loukas, diretor do Instituto Australiano de Saúde Tropical e Medicina da James Cook University, avalia que essa tecnologia pode abrir caminho para uma ampla variedade de aplicações médicas.
Segundo o pesquisador, uma das possibilidades é utilizar os vermes geneticamente modificados para produzir anticorpos capazes de bloquear hormônios ou citocinas associadas a processos inflamatórios. Outra aplicação estudada seria fazer com que os parasitas liberassem quantidades mínimas e controladas de alérgenos alimentares, com o objetivo de ajudar o organismo a desenvolver tolerância e reduzir reações alérgicas em crianças.

Tratamento pode ser revertido em 24 horas
Embora a utilização de vermes como ferramenta terapêutica possa parecer incomum, os pesquisadores afirmam que os ancilóstomos possuem características que os tornam relativamente seguros para esse tipo de abordagem experimental.
As larvas penetram no organismo através da pele e migram até o intestino delgado, local onde completam seu desenvolvimento. Apesar de poderem permanecer no hospedeiro por longos períodos, esses parasitas não tendem a se reproduzir de forma descontrolada dentro do corpo, já que seus ovos precisam ser eliminados para o ambiente externo para que o ciclo de vida continue. Essa característica é apontada pelos cientistas como um fator importante para o controle e a segurança da técnica.
Os pesquisadores destacam ainda que os ancilóstomos podem ser removidos de forma relativamente simples caso seja necessário interromper o tratamento. Segundo eles, uma única dose de medicamento anti-helmíntico é capaz de eliminar os vermes do organismo em aproximadamente 24 horas, oferecendo uma maneira rápida de encerrar a terapia.
´´É empolgante e está realmente abrindo uma nova forma de administrar e produzir moléculas terapêuticas”, disse Loukas.
A ideia ainda está em fase experimental, mas já chama atenção por transformar parasitas em possíveis aliados da medicina. O estudo foi publicado na revista Nature Communications
Fonte: Olhar Digital
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