Falhas geológicas na Califórnia atingem maior nível de tensão em mil anos, aponta estudo

Modelagem baseada em registros geológicos e físicos indica que a região entre San Andreas e San Jacinto opera sob estresse inédito; entenda

No início de junho, um estudo internacional que reconstruiu a história sísmica de parte do sul da Califórnia (EUA) indica que as principais falhas geológicas da região acumulam atualmente níveis de tensão superiores aos registrados ao longo de mais de mil anos. A análise se concentrou nas estruturas de Falha de San Andreas e Falha de San Jacinto.

A pesquisa, baseada em modelagem física e dados geológicos, investigou como uma sequência de terremotos ao longo do tempo alterou o equilíbrio de forças na crosta terrestre. O estudo foi publicado no periódico Journal of Geophysical Research e tem como pesquisadora principal a cientista Liliane M. L. Burkhard.

Segundo os autores, o cenário atual inclui uma zona crítica próxima a Los Angeles, que pode influenciar a forma como futuras rupturas sísmicas se propagam. Isso significa que um evento pode ficar restrito a uma única falha ou, em situações mais extremas, se estender para sistemas geológicos vizinhos, ampliando seu alcance.

Falhas geológicas da Califórnia atingem níveis inéditos de tensão, relata novo estudo

A simulação conduzida por pesquisadores internacionais indica que o sistema de falhas do sul da Califórnia opera hoje sob um nível de estresse superior a qualquer outro momento do último milênio. O resultado emerge de um modelo físico que reconstrói a interação entre grandes terremotos e a redistribuição de tensões ao longo do tempo.

O estudo reúne diferentes tipos de evidências geológicas, incluindo datações por radiocarbono, análise de anéis de árvores e registros históricos de eventos sísmicos, combinados com um modelo de ciclo sísmico que simula como cada terremoto redistribui a tensão acumulada nas falhas adjacentes. A principal conclusão é que a região não está apenas sob alto nível de estresse, mas em um patamar considerado extremo dentro do próprio histórico reconstruído.

Na área onde os sistemas da Falha de San Andreas e da Falha de San Jacinto se encontram, o Cajon Pass surge como um elemento-chave. Segundo a modelagem, essa região funciona como uma espécie de “regulador” da propagação de rupturas sísmicas, podendo facilitar ou bloquear a transferência de um terremoto entre as falhas, dependendo das condições de tensão acumulada.

Os resultados também mostram que esse comportamento não é fixo, mas varia ao longo do tempo conforme a evolução do estresse tectônico. Em alguns cenários, as rupturas permanecem restritas a uma única falha, como no terremoto de Fort Tejon, em 1857, enquanto em outros podem se propagar de forma conjunta entre sistemas, como ocorreu em 1812.

O cenário atual é considerado preocupante porque os níveis de tensão estimados se aproximam de combinações já associadas a rupturas mais extensas. Em um dos segmentos da Falha de San Jacinto, os valores chegam a 3,6 MPa, enquanto uma seção da Falha de San Andreas atinge cerca de 2,8 MPa — níveis elevados e relativamente compatíveis entre si dentro do modelo analisado.

Para os pesquisadores, essa configuração aumenta a probabilidade de eventos sísmicos que possam envolver simultaneamente mais de uma falha, o que teria potencial de ampliar significativamente os impactos na região de Los Angeles e em áreas densamente urbanizadas do sul da Califórnia.

Ainda assim, o estudo reforça que não se trata de uma previsão de terremoto, mas sim de uma avaliação física do estado atual de tensão acumulada no sistema geológico.

Fonte: Olhar Digital

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