Volkswagen anuncia corte na produção e visa reestruturação

Há, ainda, a possibilidade de a alemã demitir cerca de 100 mil funcionários até o fim da década e fechar quatro fábricas na Alemanha

A Volkswagen revelou um amplo programa de reorganização com o objetivo de diminuir despesas e recuperar sua competitividade diante do crescimento das montadoras chinesas e da transformação do mercado automotivo em direção aos carros elétricos.

Entre as principais iniciativas anunciadas, a fabricante alemã pretende reduzir pela metade sua linha de modelos e diminuir a produção global para aproximadamente nove milhões de veículos por ano.

Embora a companhia ainda não tenha confirmado oficialmente os impactos sobre o quadro de funcionários, reportagens divulgadas nos últimos dias (inclusive pelo Olhar Digital) apontam que a montadora avalia eliminar cerca de 100 mil postos de trabalho até o final da década, além de encerrar as atividades de quatro fábricas na Alemanha.

A estratégia foi apresentada após uma reunião do conselho de supervisão da empresa e é interpretada como um reconhecimento de que a Volkswagen se tornou uma organização grande e complexa demais para competir de forma eficiente no atual cenário da indústria automobilística, impulsionado pela rápida expansão dos veículos elétricos e pelo fortalecimento das fabricantes chinesas.

Produção da Volkswagen será reduzida para nove milhões de veículos

  • Segundo a empresa, a meta é produzir cerca de nove milhões de automóveis por ano;
  • Antes da pandemia de Covid-19, a Volkswagen trabalhava com uma capacidade de 12 milhões de veículos anuais. Mais recentemente, esse objetivo havia sido reduzido para 10 milhões;
  • Em comunicado em vídeo, o CEO da Volkswagen, Oliver Blume, afirmou que a empresa precisa eliminar sua capacidade excedente;
  • “A situação geopolítica se tornou mais crítica nos últimos 12 meses”, disse Blume. “Os próximos anos decidirão quem terá um papel decisivo na indústria automotiva.”

Ao afirmar que é necessário “eliminar o excesso de capacidade”, o executivo indicou que o encerramento das atividades de algumas fábricas ainda está entre as possibilidades. No entanto, ele não informou quais unidades poderão ser impactadas pela medida.

Conselho evita detalhar cortes
Mesmo após anunciar a redução do volume de produção e a diminuição de sua linha de veículos, a Volkswagen não informou quantos modelos serão descontinuados nem o número de trabalhadores que poderão ser afetados pelas mudanças.

A falta de informações mais detalhadas recebeu críticas de analistas do setor. “As questões urgentes não foram respondidas pelo conselho de supervisão hoje”, afirmou ao The New York Times Ferdinand Dudenhöffer, diretor do Center Automotive Research, em Bochum, na Alemanha.

Hoje, a Volkswagen emprega cerca de 657 mil pessoas em diferentes países e mantém 111 fábricas espalhadas pelo mundo, presentes em todos os continentes, com exceção da Austrália e da Antártida.

Além da própria marca Volkswagen, o conglomerado reúne fabricantes como Audi, Porsche, Skoda, Lamborghini e Bentley. O grupo também possui 88% da Traton, empresa que controla as marcas de caminhões MAN, Scania e International.

Rumores de fechamento preocupam trabalhadores
Os rumores sobre o possível fechamento de fábricas aumentaram a preocupação entre os trabalhadores, principalmente na Alemanha.

Na cidade alemã de Neckarsulm, onde aproximadamente 15 mil pessoas atuam na fabricação de veículos da Audi, muitos moradores temem os efeitos econômicos que um eventual encerramento da unidade poderia causar. “Se a Audi morrer, tudo aqui morre”, afirmou Cayli Halin, de 54 anos, colaboradora do centro de testes da fábrica.

Ali Alp Cagan, de 31 anos, funcionário da área de tecnologia da informação da Audi há quase dois anos, disse que não está especialmente preocupado com seu próprio emprego, mas admitiu que o ambiente é de incerteza. “No geral, porém, a situação já está tensa”, declarou.

Segundo Cagan e outros empregados entrevistados durante a troca de turno na unidade, parte da responsabilidade pelo momento enfrentado pela empresa está na dificuldade de acompanhar o ritmo de inovação das fabricantes chinesas concorrentes.

Lucro e vendas caíram
A empresa alemã apresentou dificuldades financeiras em diversos mercados. No primeiro trimestre, o lucro encolheu 28%, alcançando 1,6 bilhão de euros (aproximadamente R$ 9,3 bilhões). No mesmo período, as vendas registraram queda de 2%.

A Porsche, divisão que historicamente figura entre as mais lucrativas do grupo, também sofreu impacto das tarifas de 25% aplicadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre automóveis importados.

Como os carros esportivos e SUVs da marca são fabricados na Alemanha e enviados ao mercado norte-americano, um de seus principais destinos, a medida elevou ainda mais a pressão sobre o desempenho financeiro da companhia.

Concorrência chinesa pressiona montadoras tradicionais
As dificuldades enfrentadas pela Volkswagen refletem uma transformação mais ampla pela qual passa a indústria automotiva global.

Montadoras da Europa, dos Estados Unidos e do Japão vêm encontrando obstáculos para competir com fabricantes chinesas, como BYD e Geely, que oferecem veículos equipados com tecnologias modernas e recursos premium por preços mais acessíveis.

Segundo dados da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis, as marcas chinesas comercializaram, em conjunto, mais veículos do que as montadoras japonesas na União Europeia (UE) e no Reino Unido durante o mês de maio.

Favorecidas por incentivos concedidos pelo governo chinês, essas empresas investiram com antecedência no desenvolvimento de veículos elétricos, conquistando vantagem justamente quando esse mercado passou a crescer rapidamente na Europa.

Hoje, cerca de um em cada cinco automóveis novos vendidos no continente é elétrico. Neste ano, as vendas aumentaram ainda mais em razão da elevação dos preços dos combustíveis provocada pela guerra entre Estados Unidos e Irã.

A Volkswagen também vem enfrentando uma forte redução em seu principal mercado internacional. Durante muitos anos, a China foi uma das maiores fontes de lucro da companhia, que chegou a ocupar a liderança no mercado local. Entretanto, as vendas da montadora no país recuaram 20% no primeiro trimestre deste ano, ampliando uma sequência de quedas registrada nos últimos anos.

Governo alemão tenta evitar fechamento de fábricas
As especulações sobre o possível encerramento das atividades de algumas fábricas aumentaram a preocupação na Alemanha, país em que a indústria automotiva desempenha papel fundamental na economia.

O governo do chanceler Friedrich Merz tem buscado fortalecer o setor por meio da concessão de novos incentivos financeiros e da defesa de uma flexibilização de determinadas regras da União Europeia para a indústria automobilística, com a intenção de ampliar a competitividade das montadoras alemãs frente às fabricantes chinesas.

Antes da reunião do conselho de supervisão da Volkswagen, Merz evitou comentar os rumores envolvendo a companhia. Na semana anterior, entretanto, seu porta-voz, Stefan Kornelius, declarou aos jornalistas: “Nosso objetivo é evitar o fechamento de fábricas na Alemanha.”

Enquanto a Volkswagen coloca em andamento sua mais ampla reestruturação das últimas décadas, continuam sem definição pontos considerados essenciais, como o total de postos de trabalho que poderão ser extintos e quais unidades industriais poderão ser desativadas.

A estratégia representa um esforço da montadora para adequar sua estrutura às rápidas mudanças do mercado automotivo mundial e ao crescimento da concorrência exercida pelas fabricantes chinesas.

Fonte: Olhar Digital

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