SpaceX: empresa de Musk foi de foguetes e internet à IA e guerra

Esforços da empresa de Elon Musk começam a render frutos em escala crescente

As promessas de levar tecnologia ao campo de forma rápida e os vínculos construídos com o Pentágono têm permitido à SpaceX fechar novos contratos bilionários. Após anos de aproximação com setores de segurança nacional dos Estados Unidos, os resultados dessa estratégia começam a aparecer em larga escala.

Atualmente, o governo norte-americano é o maior cliente individual da SpaceX, empresa com 24 anos de atuação que chegou a identificar esse contratante como “Customer A” em documentos regulatórios antes da abertura de capital planejada. A receita proveniente do setor público somou cerca de US$ 4 bilhões em 2025 e deve crescer significativamente nos próximos anos.

Sob a liderança de Elon Musk, a companhia conseguiu unir produção em larga escala de satélites e lançamentos frequentes de foguetes com uma forte articulação junto ao Departamento de Defesa, garantindo contratos de alto valor. Esses acordos colocam a empresa no centro das estratégias espaciais de defesa e inteligência dos Estados Unidos.

Recentemente, a Força Espacial dos EUA concedeu à empresa um contrato de US$ 2,3 bilhões para o desenvolvimento de uma rede de comunicação por satélite voltada a aplicações militares, além de outro acordo de US$ 4,2 bilhões para a criação de satélites destinados ao monitoramento de mísseis e aeronaves a partir da órbita.

Ambos os projetos foram impulsionados por meio da chamada “outra autoridade de transação” do Pentágono, um mecanismo que permite acelerar a contratação de tecnologias militares ao flexibilizar parte das regras tradicionais de aquisição de equipamentos e sistemas de defesa.

Esse modelo reduz etapas burocráticas que, em processos convencionais, costumam tornar mais lento o desenvolvimento e a implementação de novas tecnologias no setor militar.

SpaceX deve crescer mais no futuro

  • Embora a SpaceX ainda seja uma contratada do governo muito menor do que gigantes da defesa, como Lockheed Martin e Northrop Grumman, analistas avaliam que o trabalho em rápida expansão com militares e agências de inteligência pode, no futuro, rivalizar com os negócios espaciais dessas fabricantes de armas;
  • O papel da SpaceX na segurança nacional já se tornou tão essencial que autoridades da Casa Branca concluíram, no ano passado, que o governo não poderia cancelar contratos militares após o embate de Musk com o presidente Trump, segundo reportagem do The Wall Street Journal;
  • “Eles querem ser os trilhos sobre os quais todos os trens estão andando”, disse Kimberly Burke, diretora de assuntos governamentais da consultoria Quilty Space, ao Journal. “A SpaceX quer muito ser a espinha dorsal”, acrescentou, referindo-se às operações do governo em órbita baixa da Terra;
  • A SpaceX não respondeu aos pedidos de comentário do periódico.

Em entrevista ao CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, na quinta-feira (11), Musk afirmou que a SpaceX é um “elemento vital” da segurança nacional dos Estados Unidos. Ele citou o trabalho da empresa no Starshield — uma rede militar de comunicações via satélite — e também em programas classificados operados por órgãos de inteligência do governo.

Estratégia voltada para a defesa
A SpaceX tem transmitido à comunidade de defesa uma mensagem clara: a empresa aposta na velocidade de entrega. Para isso, oferece tecnologias baseadas principalmente em soluções já desenvolvidas, mesmo quando elas não se encaixam perfeitamente nos formatos tradicionais de programas ou contratos militares.

Essa abordagem ajudou a empresa a avançar no desenvolvimento de sistemas de rastreamento de aeronaves e mísseis por satélite, dentro do programa conhecido como Airborne Moving Target Indicator. O Pentágono vem testando diferentes tecnologias para identificar alvos a partir do espaço, mas autoridades militares afirmaram no ano passado que uma solução operacional poderia levar até 2030 para ser concluída.

Após a SpaceX propor um sistema baseado em radar com prazo de entrega mais curto, o governo acabou publicando, em fevereiro, uma solicitação mais restrita e adaptada às capacidades da empresa, segundo fontes ouvidas pelo The Wall Street Journal. Oficiais do Pentágono também indicaram que outras companhias devem conquistar parte dos contratos destinados à missão de rastreamento de mísseis.

O National Reconnaissance Office (NRO), agência de inteligência dos Estados Unidos responsável pela operação de satélites classificados, também colaborou com a SpaceX no desenvolvimento de uma rede de satélites de imagem e de um sistema voltado ao rastreamento de alvos em movimento terrestre, segundo fontes familiarizadas com o assunto. A agência tem a capacidade de firmar contratos que dispensam parte dos processos tradicionais de aquisição do governo.

Em comunicado, o NRO afirmou que todas as suas compras passam por análises para garantir conformidade com as normas legais e regulatórias. A instituição também destacou que sua constelação com mais de 200 satélites em órbita baixa representa o sistema de inteligência, vigilância e reconhecimento mais avançado já colocado em operação pelo país.

O Pentágono, por sua vez, tem utilizado a SpaceX como exemplo de empresa capaz de ajudar as forças armadas a reduzir burocracias e acelerar o desenvolvimento de capacidades militares. Durante uma visita à base Starbase, no Texas, em janeiro, o secretário de Defesa Pete Hegseth afirmou que o departamento tem sido prejudicado por processos lentos e estruturas excessivamente burocráticas. Segundo ele, esse modelo contrasta diretamente com a agilidade atribuída à SpaceX.

Laços em formação
As tecnologias desenvolvidas pela SpaceX têm contribuído para fortalecer a relação da empresa com o Pentágono e com agências de inteligência dos Estados Unidos.

No ano passado, o secretário da Força Aérea, Troy Meink, informou por escrito à senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, que Elon Musk esteve entre as pessoas presentes durante sua entrevista com Donald Trump para o cargo que ocupa atualmente. Meink, que já atuou como alto funcionário do National Reconnaissance Office (NRO), afirmou ainda não possuir vínculos pessoais com Musk ou com a SpaceX além do contexto profissional.

“A natureza crítica de algumas dessas capacidades nos levou a pressionar pelo que podemos colocar em produção agora”, declarou Meink. Autoridades de defesa também avaliam como o Starship, o foguete de grande porte desenvolvido pela SpaceX, pode ser utilizado para transportar cargas maiores à órbita e viabilizar missões mais avançadas no espaço.

Em novembro do ano passado, a SpaceX recebeu autorização para realizar até 76 voos anuais do Starship a partir de uma base de lançamento militar próxima a Cabo Canaveral, na Flórida. O número quase triplica o limite anteriormente previsto em documentos da Força Espacial de 2022.

Segundo registros militares, essa maior frequência de lançamentos ampliaria o acesso do governo às capacidades do Starship e aumentaria sua presença em órbita. No entanto, os planos da empresa também geraram preocupações em concorrentes do setor aeroespacial.

A United Launch Alliance, controlada por Boeing e Lockheed Martin, alertou que a operação do Starship a partir de uma única base poderia interferir em outras atividades de lançamento. Em resposta, a SpaceX defende que, no futuro, os locais de lançamento deverão funcionar de maneira semelhante a aeroportos, com múltiplas decolagens diárias de diferentes operadores.

Parlamentares também levantaram questionamentos concorrenciais diante da crescente participação da SpaceX nos contratos espaciais do governo, cuja carteira tem se expandido rapidamente. Em audiência no Comitê de Serviços Armados do Senado, em maio, Meink afirmou que o governo enfrenta uma “necessidade de velocidade” em determinados programas, que não podem aguardar a entrada de mais empresas no setor.

Fonte: Olhar Digital

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *