Como um ‘airbag espacial’ pode evitar apagão global causado pelo Sol
Pesquisadores propõem a criação de uma espécie de escudo espacial para proteger a Terra

Uma supertempestade solar pode parecer algo saído da ficção científica, porém cientistas já pesquisam formas de diminuir seus impactos antes que ela coloque em risco a infraestrutura tecnológica da Terra. Denominada StormWall, a proposta consiste na criação de um escudo espacial capaz de enfraquecer grandes ejeções de massa coronal antes que elas alcancem o planeta.
O projeto é baseado em um conceito relativamente simples: posicionar satélites em órbita geoestacionária preparados para liberar elementos como bário, lítio ou sódio quando uma supertempestade solar estiver se aproximando. Após serem ionizados pela luz do Sol, esses materiais formariam uma nuvem de gás capaz de desacelerar a massa de plasma, diminuindo seus efeitos sobre a Terra.
Os pesquisadores avaliam que a tecnologia poderá reduzir os impactos de eventos raros, mas com potencial para causar grandes prejuízos, que costumam ocorrer aproximadamente uma vez por século. Embora o StormWall ainda seja apenas uma proposta teórica, seus idealizadores afirmam que sua implementação seria possível com tecnologias já existentes ou que estão em estágio avançado de desenvolvimento.
Como funciona uma tempestade solar?
O Sol emite continuamente partículas eletricamente carregadas para o espaço por meio do vento solar. Na maior parte do tempo, esse fluxo é desviado pelo campo magnético da Terra, que atua como uma proteção natural para o planeta.
O Sol libera constantemente partículas carregadas em direção ao espaço através do vento solar. Em condições normais, essas partículas são desviadas pelo campo magnético terrestre, que age como um escudo natural, protegendo a Terra.
Exemplos desse tipo de ocorrência já foram registrados nas últimas décadas:
- Em 1989, uma tempestade solar deixou a província canadense de Quebec sem energia durante nove horas;
- Em 2012, uma supertempestade passou perto da Terra sem atingir o planeta;
- Mais recentemente, em 2024, uma tempestade solar obrigou operadores da rede elétrica da Nova Zelândia a adotarem medidas de mitigação e provocou falhas no GPS durante o período de plantio em regiões dos Estados Unidos, gerando prejuízos estimados em cerca de US$ 1 bilhão.

Airbag espacial para a Terra
Os criadores do StormWall comparam o projeto ao airbag de um automóvel: um sistema de segurança que seria acionado apenas em situações críticas, quando as demais formas de proteção não fossem suficientes.
Para Ian Cohen, chefe de física solar e espacial do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, o conceito é teoricamente plausível.
O maior desafio, porém, está na previsão do clima espacial. Ao contrário da meteorologia terrestre, os pesquisadores ainda contam com um número limitado de sensores para monitorar a atividade do Sol, o que dificulta identificar com antecedência quais ejeções de massa coronal terão potencial para causar grandes danos.
Para que o StormWall pudesse ser utilizado, seria necessário detectar rapidamente uma tempestade solar perigosa, acompanhar seu deslocamento por meio de satélites de monitoramento e, posteriormente, obter a autorização de um painel internacional para ativar o sistema.
Já Brian Walsh, professor associado de engenharia da Universidade de Boston e um dos idealizadores do StormWall, argumenta que o investimento no “escudo espacial” pode parecer alto, mas se justifica diante da crescente dependência mundial de infraestrutura digital.
Em entrevista ao The Wall Street Journal, ele afirmou que uma tempestade solar poderia “causar enormes apagões em continentes inteiros”, além de comprometer redes elétricas, centros de dados espaciais, satélites e até sistemas de defesa antimísseis.
“Se o custo for menor do que enviar pessoas à Lua, e as pessoas fizerem as contas, fará sentido em um futuro muito próximo”, afirmou.

Maior desafio está no lançamento
Além dos desafios relacionados à previsão, o projeto também enfrenta obstáculos de engenharia. As estimativas indicam que seriam necessárias aproximadamente 838 mil libras de material ionizável para formar o escudo espacial. Todo esse material teria de ser transportado para a órbita geoestacionária, localizada a cerca de 22 mil milhas da superfície terrestre.
Essa posição é considerada estratégica porque permite que o material ionizado permaneça nas chamadas “rodovias naturais” do espaço, oferecendo cerca de seis horas de proteção antes de se dissipar.
Hoje, colocar uma carga dessa dimensão nessa órbita exigiria vários lançamentos de foguetes de grande porte, algo que ainda não é considerado viável. Os pesquisadores destacam que veículos em desenvolvimento, como a Starship, da SpaceX, e o foguete Longa Marcha 9, da China, poderão aumentar essa capacidade ao longo da próxima década, embora ainda não exista garantia de que atenderão às exigências do projeto.
Mesmo em um cenário favorável, Welling afirma que somente a fase de pesquisa levaria, no mínimo, cinco anos antes que o conceito pudesse ser implementado.
Embora as projeções indiquem que o StormWall possa exigir investimentos de até US$ 100 bilhões, os pesquisadores argumentam que uma única supertempestade solar teria potencial para provocar prejuízos muito maiores, afetando redes elétricas, satélites e centros de dados cada vez mais essenciais para aplicações de inteligência artificial, comunicações e serviços digitais.
Fonte: Olhar Digital
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