Cometa interestelar 3I/ATLAS pode ser mais antigo que o Sistema Solar, indicam novas análises

Análise química de 3I/ATLAS revela composição incomum e sugere que o visitante interestelar pode ter surgido nos primórdios da Via Láctea

Um grupo de pesquisadores coordenado pelo astrofísico molecular Martin Cordiner encontrou indícios de que o cometa interestelar 3I/ATLAS pode ter se originado há aproximadamente 11 a 12 bilhões de anos, o que indica uma formação anterior ao próprio Sistema Solar. A conclusão foi obtida por meio da análise da composição química do objeto, observada com instrumentos astronômicos de alta precisão. O estudo foi publicado na revista Nature nesta segunda-feira (22) e pode ser consultado aqui.

Os dados foram coletados a partir de medições feitas após a passagem do corpo celeste pelo Sistema Solar em 2025. As análises sugerem que o material que deu origem ao cometa se formou em uma região extremamente fria e com baixa presença de elementos enriquecidos por sucessivas gerações de estrelas.

A descoberta chama atenção porque o 3I/ATLAS já havia se destacado por apresentar características distintas tanto dos cometas do Sistema Solar quanto dos outros dois objetos interestelares já identificados. Agora, os resultados reforçam a hipótese de que ele conserve informações químicas de uma fase muito antiga da história da Via Láctea.

O que os cientistas descobriram sobre o 3I/ATLAS

As conclusões foram alcançadas a partir da análise de dados obtidos em comprimentos de onda infravermelhos e de rádio, usados para estudar a composição da nuvem gasosa que envolve o cometa. Os cientistas focaram especialmente na razão entre diferentes isótopos de hidrogênio e carbono, que ajudam a reconstruir as condições do ambiente em que o corpo celeste se formou.

Um dos achados mais importantes diz respeito à água detectada ao redor do cometa. Os pesquisadores identificaram uma concentração incomumente alta de deutério, uma variante mais pesada do hidrogênio. A taxa medida foi de 0,98%, acima dos valores normalmente encontrados em cometas do Sistema Solar.

De acordo com os modelos teóricos aplicados na pesquisa, esse tipo de enriquecimento extremo geralmente ocorre quando o gelo se forma em temperaturas abaixo de 30 kelvin, o que equivale a cerca de -243 °C. Esse resultado sugere que uma parte significativa da água do objeto se originou em uma região muito afastada de qualquer fonte estelar de calor.

Ao comentar os resultados, Cordiner ressaltou que a descoberta muda a maneira como os cientistas interpretam o visitante interestelar. “Subitamente, não estamos mais perguntando ‘isso é um cometa?’, mas ‘o que esse objeto único pode nos contar sobre a história da nossa galáxia?’”, afirmou Martin Cordiner, astrofísico molecular do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, em entrevista ao ScienceAlert.

Segundo o pesquisador, o padrão químico observado na água representa um desafio para os modelos atuais que explicam a formação de gelo no ambiente espacial. “A detecção de uma quantidade tão expressiva de água contendo deutério é surpreendente, pois difere de qualquer outro objeto primitivo do Sistema Solar e desafia nossa compreensão sobre como os gelos são formados no espaço.”

As medições ligadas ao carbono revelaram outro traço fora do comum. O objeto apresentou uma proporção elevada entre os isótopos carbono-12 e carbono-13, um padrão geralmente associado a materiais que sofreram pouca influência de sucessivas gerações de estrelas.

Isso acontece porque elementos mais pesados são formados no interior das estrelas e se espalham pelo espaço ao longo de suas fases evolutivas e explosões. Quanto mais enriquecida quimicamente uma região da galáxia, maior tende a ser a presença desses elementos em corpos celestes que se formam ali.

A partir da comparação entre os dados observados e modelos de evolução química da Via Láctea, os pesquisadores estimaram que o 3I/ATLAS pode ter se originado em um período em que a galáxia ainda era relativamente jovem, anterior ao nascimento do Sistema Solar.

Os autores, no entanto, destacam uma alternativa: o cometa pode ter se formado em uma região isolada, pouco contaminada por material ejetado por estrelas, o que também explicaria uma composição semelhante à de objetos extremamente antigos.

A origem exata do corpo interestelar, porém, deve permanecer sem resposta definitiva. Segundo Cordiner, as limitações atuais da astronomia não permitem reconstruir com precisão trajetórias tão antigas, especialmente considerando a complexidade dos movimentos estelares e das nuvens interestelares ao longo da galáxia.

Mesmo sem uma conclusão final sobre sua origem, os pesquisadores afirmam que o cometa representa uma oportunidade rara de estudar fases iniciais da evolução galáctica. Por ter permanecido congelado durante grande parte de sua existência, o objeto pode ter preservado características químicas praticamente intactas por bilhões de anos.

Atualmente, o 3I/ATLAS segue sua trajetória de saída do Sistema Solar. Segundo os cientistas, ele já ultrapassou a órbita de Júpiter, deve cruzar a região da órbita de Plutão em 2029 e pode deixar a heliosfera por volta de 2035.

Fonte: Olhar Digital

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