Cientista aponta falha que pode mudar o que sabemos sobre arte rupestre

Técnica que revolucionou a ciência pode estar superestimando idade de pinturas pré-históricas, segundo o pesquisador Georges Sauvet

Uma técnica científica que transformou a forma de determinar a idade da arte pré-histórica pode estar atribuindo datas mais antigas do que o real a pinturas rupestres em diferentes partes do mundo. O questionamento foi levantado pelo pesquisador francês Georges Sauvet, que coloca em dúvida a exatidão de estimativas recentes, incluindo a de um estêncil de mão encontrado na Indonésia e datado em 67.800 anos.

A crítica está relacionada ao método de datação por urânio-tório (U-Th), amplamente empregado quando as pinturas não possuem materiais orgânicos que permitam análises por radiocarbono. De acordo com os pesquisadores que contestam a técnica, a ação da água da chuva e de correntes subterrâneas pode alterar a calcita depositada sobre as obras, transformando-a em um sistema aberto. Esse processo favoreceria a remoção do urânio ao longo do tempo, produzindo idades artificialmente mais elevadas e podendo influenciar interpretações sobre o desenvolvimento cognitivo e cultural dos antigos hominídeos.

Cientistas divergem sobre a precisão das análises e propõem uso de novas tecnologias de filtragem
A técnica de datação por urânio-tório (U-Th) baseia-se na água que percorre o interior das cavernas, depositando camadas de calcita que incorporam pequenas quantidades de urânio-234. Com o passar do tempo, esse elemento radioativo se converte gradualmente em tório-230, permitindo aos cientistas estimar a idade das formações minerais. Para que o resultado seja confiável, pressupõe-se que o depósito permaneceu intacto, sem ganho ou perda de material desde sua formação.

Entretanto, Georges Sauvet argumenta que utilizar apenas esse método não é suficiente para confirmar a idade de vestígios arqueológicos. “Em teoria, o dr. Sauvet está correto. A datação por séries de urânio pode produzir idades superestimadas”, explicou Adelphine Bonneau em declaração ao Live Science. O pesquisador francês também sustenta que a disputa por reconhecimento acadêmico e recursos para pesquisa tem incentivado uma corrida para identificar a arte rupestre mais antiga do mundo, o que pode levar a interpretações precipitadas dos resultados.

Para sustentar suas críticas, o pesquisador citou exemplos em que os resultados obtidos pela datação por urânio-tório diferiram significativamente daqueles produzidos pelo radiocarbono. Na Caverna de Nerja, por exemplo, o método U-Th estimou a idade de uma pintura em cerca de 119 mil anos, enquanto a análise por radiocarbono do carvão associado à mesma imagem indicou aproximadamente 19 mil anos. Em outro caso, no sítio arqueológico Leang Balangajia, uma camada externa de calcita — que teoricamente deveria ser mais recente — apresentou idade de 37.300 anos, cerca de 7.800 anos superior à camada localizada logo abaixo. Para os críticos, essas inconsistências sugerem que os depósitos minerais foram alterados ao longo do tempo, comprometendo a precisão das medições.

A discussão também tem impacto direto nos debates sobre as capacidades cognitivas dos Neandertais. Em 2018, um estudo liderado por Dirk Hoffmann utilizou a técnica U-Th para atribuir uma idade de cerca de 65 mil anos a pinturas encontradas na Espanha, sugerindo que elas teriam sido produzidas por Neandertais. No entanto, essa interpretação continua sendo alvo de controvérsias. Georges Sauvet argumenta que não existem evidências arqueológicas conclusivas que comprovem a autoria dessas obras por essa espécie humana extinta. Por outro lado, diversos especialistas defendem que os Neandertais possuíam capacidade simbólica e artística.

Os defensores da metodologia ressaltam que nenhum método de datação é totalmente livre de limitações. João Zilhão lembra que a própria datação por radiocarbono pode ser afetada por contaminações externas. Já Maxime Aubert, responsável por importantes descobertas na Indonésia, considera exagerado descartar a técnica U-Th com base em alguns exemplos problemáticos.

Aubert explicou que sua equipe emprega uma técnica avançada de ablação a laser, capaz de remover pequenas porções das amostras para analisar detalhadamente a distribuição dos isótopos e identificar áreas alteradas por infiltrações de água. Segundo Adelphine Bonneau, essa tecnologia não estava disponível quando Hoffmann realizou seu estudo, o que limitou a avaliação da confiabilidade de algumas amostras. Embora reconheça os riscos teóricos apontados por Sauvet, a pesquisadora sustenta que a datação por urânio-tório continua sendo uma ferramenta confiável quando aplicada com critérios rigorosos e procedimentos adequados.

Fonte: Olhar Digital

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