Ciclones tropicais estão emitindo menos carbono e podem se tornar esponjas de CO₂ até 2035

Estudo na Nature Geoscience mostra que tempestades liberam menos gás do oceano para a atmosfera desde os anos 1990

Os ciclones tropicais figuram entre os eventos climáticos mais intensos e devastadores da Terra, mas sua influência sobre o ciclo global do carbono sempre gerou debates entre os cientistas: eles contribuem para a liberação de dióxido de carbono (CO₂) dos oceanos ou favorecem sua absorção? Agora, um grupo internacional de pesquisadores conseguiu medir esse impacto pela primeira vez por meio de dados diários que analisam a troca de carbono entre a atmosfera e o oceano.

Os resultados, publicados na revista científica Nature Geoscience, indicam que, atualmente, os ciclones tropicais liberam mais carbono do que removem. No entanto, essa emissão vem diminuindo de forma acelerada. Os cientistas também apontam que, caso as emissões humanas de CO₂ permaneçam elevadas, esses fenômenos poderão passar a absorver mais carbono do que liberar já por volta de 2035, tornando-se sumidouros líquidos de carbono. Essa mudança, porém, poderá intensificar problemas relacionados à acidificação dos oceanos.

O que os números mostram
Atualmente, os oceanos removem entre 20% e 30% do dióxido de carbono (CO₂) liberado pelas atividades humanas. Já os ciclones tropicais, por meio de seus ventos extremamente fortes, provocam uma intensa agitação nas camadas superficiais do oceano. Apesar disso, determinar se o efeito final desses fenômenos favorece a absorção ou a liberação de carbono sempre foi um desafio, principalmente pela falta de medições diretas realizadas durante as tempestades.

Para superar essa limitação, os pesquisadores reuniram informações provenientes de diferentes fontes e criaram um banco de dados diário sobre as trocas globais de CO₂ entre a atmosfera e os oceanos. A análise dos dados permitiu obter uma resposta mais precisa sobre o impacto real dos ciclones tropicais nesse processo. Os resultados foram contundentes:

  • Ciclones tropicais ainda causam emissão líquida de carbono (libera mais do que absorve). Os ventos fortes aumentam a transferência de CO₂ do mar para a atmosfera, embora o resfriamento da superfície da água deixado pelas tempestades contribua para alguma absorção, compensando parte da emissão;
  • Essa emissão líquida está diminuindo. Na segunda metade da década de 1990, os ciclones tropicais contribuíam com cerca de 16% do fluxo global anual de carbono. Entre 2016 e 2020, essa fração caiu para apenas 4,5%.

A redução dessas emissões está diretamente relacionada ao aquecimento global. À medida que as temperaturas aumentam, a camada superficial dos oceanos se aquece mais rapidamente do que as águas profundas, intensificando a diferença térmica entre elas. Como consequência, ciclones com a mesma força de décadas anteriores passam a provocar um resfriamento mais pronunciado da superfície do mar, formando as chamadas “esteiras frias”, que podem permanecer por várias semanas.

Esse resfriamento acentua o desequilíbrio de carbono entre a atmosfera e o oceano, favorecendo uma maior absorção de CO₂ pelas águas após a passagem da tempestade. Dessa forma, parte do carbono liberado durante o evento acaba sendo compensada por um aumento posterior na captura do gás pelo oceano.

O ponto de virada: 2035
Caso as emissões humanas de CO₂ continuem em níveis elevados, as projeções indicam que os ciclones tropicais poderão mudar de função por volta de 2035. Em vez de contribuírem para a liberação de carbono, esses fenômenos passariam a favorecer uma absorção líquida do gás pelos oceanos. Embora isso possa parecer positivo à primeira vista, os pesquisadores alertam para possíveis consequências negativas.

O aumento da captura de CO₂ pelas águas oceânicas tende a intensificar a acidificação dos oceanos, alterando a composição química da água do mar. Esse processo pode afetar diversos organismos marinhos e reduzir áreas adequadas para a sobrevivência de inúmeras espécies, trazendo impactos significativos para os ecossistemas oceânicos.

A pesquisa foi conduzida por especialistas da Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa da China, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos EUA e do Centro Helmholtz GEOMAR para Pesquisa Oceânica de Kiel.

Segundo os autores, a forma como os ciclones tropicais influenciarão o ciclo do carbono nas próximas décadas dependerá diretamente das ações humanas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Caso essas emissões sejam controladas rapidamente, a tendência de diminuição do fluxo de carbono associado aos ciclones provavelmente não será revertida antes da década de 2040. Ainda assim, os níveis de absorção de carbono só voltariam aos valores observados atualmente próximo ao final do século.

Para os pesquisadores, a principal conclusão do estudo é que até mesmo os fenômenos naturais mais extremos já estão sofrendo alterações em seu comportamento devido ao aquecimento global. Os impactos dessa transformação não se limitam ao clima, mas também afetam a química dos oceanos. Dessa forma, o trabalho reforça os alertas sobre a necessidade de reduzir as emissões de carbono e mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

Fonte: Olhar Digital

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