Meta nega interferência nas eleições brasileiras e atribui problemas a falhas técnicas
Empresa afirma que incidentes envolvendo contas de Lula e ferramentas de IA foram corrigidos; reportagem da Folha cita mensagens internas sobre restrições ao candidato e recomendações de conteúdo ligado a Flávio Bolsonaro

A Meta divulgou, nesta sexta-feira (16), um comunicado em que rejeita as acusações de interferência nas eleições brasileiras de 2026. A empresa atribuiu os problemas recentes relacionados às campanhas presidenciais a falhas técnicas. Responsável por plataformas como Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp, a companhia afirma que suas políticas são aplicadas de forma igualitária a candidatos e partidos, sem beneficiar grupos políticos específicos.
A declaração foi publicada após a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acusar as plataformas de restringir conteúdos e contas associados ao presidente. Em seu blog oficial, a empresa apresentou explicações sobre casos envolvendo publicidade política, registros de visualizações e a ferramenta de inteligência artificial Meta AI.
Entretanto, a explicação da companhia contrasta com informações divulgadas pela Folha de S.Paulo. Conforme a reportagem, comunicações internas de funcionários da Meta apontaram restrições que afetaram contas de Lula, além de recomendações algorítmicas relacionadas ao perfil e ao canal de WhatsApp de Flávio Bolsonaro (PL).

Meta aponta falhas em anúncios e visualizações
- Um dos episódios citados pela empresa ocorreu em 23 de setembro, quando a conta de anúncios da campanha de Lula foi desativada por pouco mais de uma hora;
- Segundo a Meta, o bloqueio aconteceu depois que um anúncio foi classificado incorretamente como possível tentativa de se passar por um programa social do governo durante uma análise antifraude;
- A empresa afirma que a situação foi corrigida e ressalta que as páginas oficiais da campanha no Facebook e no Instagram não foram bloqueadas;
- Outro incidente ocorreu em 7 de outubro, quando uma falha nos sistemas de contagem de visualizações de vídeos afetou os Reels. Durante cerca de cinco horas, os números ficaram congelados, incorretos ou zerados, embora os conteúdos continuassem sendo distribuídos normalmente;
- De acordo com a Meta, o problema atingiu criadores em mais de 100 países e não ficou restrito ao Brasil ou a uma campanha específica. A companhia também afirma que a campanha de Flávio Bolsonaro relatou o mesmo problema naquele dia. Segundo a empresa, a conta oficial de Lula no Instagram registrou desempenho acima de seu próprio patamar recente durante o período;
- A Meta também menciona uma falha identificada em 9 de outubro no Gerenciador de Anúncios. Causado por uma atualização de código, o problema impediu temporariamente a criação de anúncios a partir de publicações já existentes no Instagram. A empresa diz que milhares de anunciantes em diferentes países foram afetados e que a falha foi resolvida após a reversão da atualização, nas primeiras horas de 10 de outubro;
- Segundo a companhia, a limitação não impediu a criação de anúncios por meio de uploads diretos no Gerenciador de Anúncios. Os anúncios que já estavam em veiculação, incluindo os da campanha de Lula, também não teriam sido afetados.
Mensagens internas relatam restrições à campanha de Lula
A versão apresentada pela Meta diverge de informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, em uma matéria fundamentada em conversas internas da companhia. De acordo com o jornal, funcionários admitiram que determinadas restrições afetaram perfis ligados a Lula no Instagram. As mensagens também mencionavam recomendações algorítmicas envolvendo a conta de Flávio Bolsonaro na rede social e seu canal no WhatsApp.
Entre os casos citados pela Folha está a impossibilidade de promover publicações antigas do feed do Instagram por um período próximo de 24 horas, desde 9 de outubro. Apesar de ainda poder divulgar novos conteúdos por outros formatos, a campanha ficou impedida de pagar para aumentar a distribuição das postagens que já estavam publicadas no feed.
A equipe de Lula calculou que a limitação teria impedido aproximadamente 1,3 milhão de pessoas de visualizar anúncios da campanha. O total, porém, corresponde a uma estimativa feita pelo próprio grupo político, sem confirmação por uma avaliação independente.

A agência de notícias Reuters também divulgou, nesta sexta-feira, informações sobre a reportagem da Folha de S.Paulo. Segundo a agência, as mensagens internas citadas pelo jornal apontavam que as restrições afetaram perfis de Lula e que conteúdos relacionados a Flávio Bolsonaro eram recomendados pelas plataformas.
Em contrapartida, a Meta sustenta que os episódios foram provocados por problemas técnicos e rejeita a acusação de ter utilizado seus recursos para beneficiar qualquer candidato. A companhia afirma que cada ocorrência mencionada em sua publicação possui uma explicação específica e que os casos não comprovam uma interferência deliberada na distribuição de conteúdos.
Meta AI também entrou na discussão
A inteligência artificial (IA) da Meta também está no centro da controvérsia. A empresa afirma que suspendeu temporariamente, no Brasil, a capacidade da ferramenta de recomendar candidatos ou criar imagens deles, como parte das ações para atender às normas eleitorais.
Como justificativa, a companhia menciona um estudo independente divulgado pelo InternetLab em 1º de outubro. De acordo com a pesquisa, a Meta AI raramente indicava ou classificava candidaturas quando recebia pedidos de recomendações eleitorais.
A Meta também admitiu que houve uma falha nos mecanismos de proteção da ferramenta em 14 de outubro. Segundo a empresa, o sistema barrava solicitações que citavam diretamente nomes como “Lula”, “Luiz Inácio Lula da Silva”, “Bolsonaro” e “Flávio Bolsonaro”. No entanto, nem sempre reconhecia os candidatos quando um nome próprio comum era utilizado junto ao respectivo número eleitoral.
Essa brecha permitia que alguns pedidos contendo “Flávio” e seu número resultassem na criação de imagens de cartazes. O mesmo problema ocorria com solicitações que combinavam “Luiz” ao número eleitoral de Lula. A empresa declarou que a falha foi corrigida ainda naquele dia.
Caso chegou à Justiça Eleitoral
As denúncias também chegaram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na quinta-feira (15), um ministro da Corte determinou que a Meta não restringisse sem justificativa a distribuição de conteúdos políticos relacionados a nenhum dos dois candidatos até o encerramento da campanha do segundo turno. A decisão ainda estabeleceu que a Meta AI não poderia beneficiar qualquer candidatura na produção de material eleitoral.
Em sua manifestação, a empresa declarou ter apresentado argumentos técnicos ao tribunal e citou um trecho de uma decisão que apontava a ausência, naquele estágio do processo, de provas suficientes de favorecimento partidário intencional por parte da plataforma. A Meta argumenta que suas ações ocorreram, principalmente, para atender a determinações judiciais e às normas eleitorais brasileiras.
A companhia afirma que seguirá apresentando sua defesa no caso e que trabalhará para solucionar falhas técnicas, respeitar a legislação vigente e assegurar tratamento igualitário aos usuários de seus serviços.
Fonte: Olhar Digital
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