NASA corre para usar o termo “superinteligência” após ordem de Trump

Mudança atinge sites, publicações, cargos e sistemas digitais da agência; funcionários temem confusão científica e problemas de integração de softwares

A NASA passou a trocar menções à inteligência artificial (IA) pelo termo “superinteligência”, em cumprimento a uma ordem executiva assinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A medida determina que as agências federais utilizem a nova expressão em seus comunicados oficiais, sem informar publicamente que a nomenclatura anterior foi substituída.

Um relatório interno, acessado pelo Space.com, apresenta um cronograma de implementação dividido em quatro etapas, com alterações programadas até 23 de dezembro. O plano inclui modificações nos sites, materiais publicados, denominações de departamentos e sistemas digitais da agência espacial. Entre as mudanças técnicas previstas, uma delas foi descrita como capaz de comprometer a integração entre softwares já existentes.

A substituição dos termos acontece enquanto a NASA intensifica a utilização da inteligência artificial em pesquisas e missões espaciais, como na navegação autônoma de veículos em Marte e no processamento de grandes quantidades de dados científicos. Embora as tecnologias empregadas permaneçam as mesmas, a atualização da nomenclatura traz novos obstáculos para a comunicação científica e para os sistemas digitais da instituição.

O que diz a ordem de Trump

  • Assinada em 29 de setembro, a ordem executiva chamada Inaugurating the Era of Super Intelligence (“Inaugurando a era da superinteligência”, em tradução livre) determina que órgãos federais substituam todas as menções a “artificial intelligence” e “AI” por “super intelligence” e “SI” em comunicações oficiais;
  • A Casa Branca argumenta que a IA avançou para além da automação simples e da imitação da inteligência humana. Por isso, segundo o governo, seria necessário adotar uma terminologia que refletisse melhor as capacidades emergentes da tecnologia;
  • Há, porém, uma contradição na determinação: embora introduza um novo nome, a ordem mantém a definição federal existente de inteligência artificial. Ela abrange, de maneira ampla, sistemas computacionais capazes de aprender e produzir previsões, recomendações ou decisões;
  • Na prática, tecnologias que já se enquadram nessa definição podem passar a ser chamadas de “superinteligência” sem precisar demonstrar qualquer capacidade adicional;
  • O documento interno distribuído pelo Escritório de Comunicações e pelo Escritório do Diretor de Informação da NASA determina que a nova terminologia seja usada imediatamente em conteúdos e publicações abrangidos pela medida;
  • A orientação inclui apresentações, exposições, materiais impressos, entrevistas à imprensa e outros conteúdos destinados ao público externo. Internamente, também se aplica a comunicações oficiais entre funcionários, guias de estilo, sites internos e sistemas de tecnologia da informação mencionados em materiais institucionais.

Pressão da direção e receio de confusão
A direção da NASA vem ajustando as prioridades da instituição às orientações do governo Trump. Desde que assumiu a administração da agência, em dezembro de 2025, Jared Isaacman tem apoiado a visão do presidente para a exploração espacial, dando destaque às missões tripuladas.

A proximidade entre ambos também se tornou evidente em eventos públicos. Em 30 de agosto, Trump fez uma ligação inesperada durante uma coletiva de imprensa sobre o lançamento do Telescópio Espacial Roman. Cerca de um mês depois, Isaacman esteve em um almoço na Casa Branca com mais de 12 representantes de empresas do setor de inteligência artificial, realizado no mesmo dia em que o presidente assinou a ordem executiva sobre superinteligência.

Durante uma coletiva realizada em 1º de outubro, Isaacman declarou que se sentiu honrado por participar da reunião. Ao falar sobre sua contribuição para o debate, explicou que estava representando o setor espacial, e não atuando como especialista em IA, mas ressaltou que a superinteligência tem potencial para transformar o rumo das civilizações.

A disposição do administrador em utilizar a nova terminologia pode ter ajudado a acelerar a aplicação da medida dentro da NASA. Um funcionário da agência entrevistado pelo Space.com descreveu a pressão interna da seguinte forma: “Estamos recebendo muita pressão do próprio administrador para agir.”

As orientações também impedem que a nomenclatura antiga seja mencionada, inclusive em frases que indiquem uma transição, como “SI, também conhecida anteriormente como IA”.

Outras expressões, entre elas “IA generativa”, também devem ser alteradas para “superinteligência generativa”. Além disso, seguindo a determinação presidencial, a comunicação institucional deve reduzir a ênfase na automação e destacar como essas tecnologias podem ampliar a criatividade e as capacidades humanas.

As regras se aplicam a todos os centros e diretorias de missões da NASA, abrangendo também prestadores de serviços e funcionários do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, na sigla em inglês), localizado na Califórnia, nos Estados Unidos.

Expressões técnicas específicas, como machine learning (aprendizado de máquina), grandes modelos de linguagem e chatbots, continuam autorizadas. Ainda assim, profissionais que participam da implementação demonstram preocupação com possíveis interpretações equivocadas provocadas pela mudança.

“Existe a preocupação de que haverá muita confusão na comunidade científica e na população em geral”, declarou ao Space.com um funcionário da NASA que conhece o plano, sob condição de anonimato.

Áudios de uma reunião interna sobre comunicação, obtidos pelo veículo, também revelam a insatisfação de participantes com a impossibilidade de explicar publicamente os motivos da alteração.

“Nem sequer devemos usar o termo IA… Estão falando disso como se fosse Voldemort ou Macbeth, com pessoas chamando de ‘a tecnologia que não deve ser nomeada’”, comentou um funcionário.

Outro participante ressaltou que as expressões representam conceitos diferentes: “Superinteligência e inteligência artificial têm significados diferentes. As duas coisas já são distintas”.

Segundo o Space.com, a discussão poderá chegar à alta administração da agência por meio de uma plataforma anônima de sugestões, que permite aos funcionários apresentar preocupações diretamente à direção.

Em declaração ao veículo, a NASA informou que está coordenando a implementação da determinação em seus comunicados e recursos digitais, buscando preservar o funcionamento e a acessibilidade de seus sistemas e serviços.

A agência acrescentou que continuará divulgando suas pesquisas, descobertas e avanços tecnológicos de maneira precisa e transparente.

NASA já utiliza IA em missões espaciais
A inteligência artificial está presente nas atividades e nos projetos científicos da NASA há vários anos. Já o conceito de superinteligência costuma estar associado a capacidades muito mais avançadas, frequentemente hipotéticas, que superariam as habilidades cognitivas humanas.

Um exemplo do emprego dessas tecnologias é o rover Perseverance, responsável por explorar Marte. Em dezembro de 2025, o veículo realizou seu primeiro trajeto no planeta com o auxílio de rotas planejadas utilizando inteligência artificial generativa.

A NASA também recorre a modelos de IA para analisar grandes volumes de informações científicas. Entre eles está o Surya, desenvolvido em conjunto com a IBM. Apresentado no ano passado, o sistema foi treinado com nove anos de dados da área de heliofísica da agência, com o objetivo de aprimorar as previsões relacionadas ao clima espacial e à atividade solar.

No mês passado, a NASA e a IBM anunciaram outra parceria direcionada à exploração lunar. O modelo desenvolvido busca auxiliar cientistas na análise da superfície da Lua para identificar possíveis depósitos de gelo de água.

A inteligência artificial também desempenha uma função importante no processamento da enorme quantidade de dados que deverá ser gerada pelo Telescópio Espacial Roman quando entrar

Mudança será implementada em quatro fases
O planejamento interno da NASA estabelece quatro fases para implementar a nova terminologia, com datas previstas entre 9 de outubro e 23 de dezembro.

9 de outubro — Fase 1: Sites prioritários e cargos

A etapa inicial, que já começou, envolve os principais portais da NASA relacionados à inteligência artificial, além da atualização de cargos de funcionários. Kevin Murphy, por exemplo, passou a ser apresentado como chefe interino de dados e superinteligência, substituindo a denominação anterior, chefe interino de dados e IA.

16 de outubro — Fase 2: Páginas de maior audiência

Essa fase contempla páginas populares dos portais nasa.gov e science.nasa.gov, além da alteração do endereço eletrônico do grupo de IA do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL). Inicialmente prevista para 30 de outubro, a conclusão foi antecipada para esta sexta-feira (16), segundo funcionários ouvidos pelo Space.com.

30 de novembro — Fase 3: Outros sites e integrações

A terceira etapa prevê modificar outras páginas de grande audiência e atualizar o endereço da plataforma Ask Sage, utilizada por órgãos do governo federal. O documento interno adverte que essa mudança pode afetar APIs e outras integrações, tornando necessário ajustar conexões entre sistemas e softwares já existentes.

23 de dezembro — Fase 4: Demais sites e sistemas internos

A última fase inclui a atualização de páginas com menor número de acessos, sistemas internos de tecnologia da informação e outras ferramentas utilizadas pela agência espacial.

O processo também abrangerá páginas antigas que continuam sendo consultadas. Conforme a situação, esses conteúdos poderão ser atualizados ou receber avisos indicando seu caráter histórico. Títulos, descrições e metadados de vídeos e podcasts antigos também poderão sofrer alterações, enquanto as gravações, transcrições e legendas originais serão preservadas.

Uma página da NASA sobre o planejamento de trajetos do rover Perseverance em Marte, por exemplo, já utiliza a sigla “SI” no título, embora o endereço eletrônico ainda contenha “AI”, abreviação em inglês para inteligência artificial. O planejamento prevê que, posteriormente, esse endereço seja redirecionado para outro que utilize a nova terminologia.

As datas estabelecidas não correspondem a prazos obrigatórios impostos pela ordem executiva. De acordo com o documento interno, elas funcionam como referências para a implementação, considerando outras prioridades da agência e do Escritório de Gestão e Orçamento dos Estados Unidos.

Assim, a NASA precisa modificar sua comunicação oficial e adaptar parte de sua estrutura digital para atender à mudança de vocabulário, embora essa alteração, por si só, não modifique as capacidades das tecnologias empregadas em suas pesquisas e missões espaciais.

Fonte: Olhar Digital

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