El Niño pode transformar a Amazônia de aliada em inimiga do clima, aponta pesquisa

Estudo acompanhou mais de 500 mil árvores por 30 anos em seis países e descobriu que eventos extremos podem fazer florestas tropicais pararem de absorver carbono

A Amazônia concentra aproximadamente 123 bilhões de toneladas de carbono, sendo o maior reservatório desse elemento entre todos os ecossistemas terrestres do mundo. No entanto, esse enorme estoque natural pode deixar de atuar como proteção ao clima e passar a representar um fator de agravamento do aquecimento global.

De acordo com um estudo publicado em 2023 na revista Nature Climate Change, durante episódios intensos de El Niño, as florestas tropicais da América do Sul podem interromper a absorção de CO₂ e começar a liberar carbono para a atmosfera.

A pesquisa foi liderada pelo cientista Tom Pugh, da Universidade de Birmingham, e contou com a participação de mais de 100 pesquisadores. O tema ganha ainda mais relevância neste momento, já que a NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, confirmou recentemente a formação de um novo El Niño, enquanto cientistas alertam que 2026 poderá se tornar o ano mais quente já registrado.

Como o El Niño afeta as florestas
As florestas tropicais retiram CO₂ da atmosfera por meio da fotossíntese, transformando esse carbono em biomassa. No entanto, esse processo depende de um equilíbrio sensível entre dois elementos principais: a temperatura e a disponibilidade de água.

Quando o clima se torna mais quente e seco, as plantas fecham os poros presentes nas folhas para reduzir a perda de água. Porém, é justamente por essas aberturas que elas captam o CO₂ necessário para realizar a fotossíntese. Sem esse gás, o processo é interrompido. Além disso, quando as árvores morrem em consequência do estresse climático, o carbono armazenado em seus troncos retorna à atmosfera durante a decomposição, um impacto que pode persistir por várias décadas.

Conforme o estudo, durante o episódio de El Niño entre 2015 e 2016, período em que as temperaturas sobre o continente ficaram pelo menos 1°C acima da média, parte das florestas tropicais da América do Sul deixou de absorver carbono, alterando temporariamente seu papel no equilíbrio climático.

500 mil árvores monitoradas por 30 anos
Para alcançar essas conclusões, a equipe de pesquisadores acompanhou mais de 500 mil árvores distribuídas por seis países da América do Sul durante um período superior a 30 anos. Utilizando fitas métricas, eles monitoraram o crescimento de mais de 4.000 espécies diferentes e, com essas informações, estimaram de forma detalhada a quantidade de carbono armazenada na biomassa acima do solo.

Os dados revelaram que as florestas localizadas nas regiões mais secas das bordas da Amazônia, onde as árvores convivem frequentemente com períodos de pouca disponibilidade de água, apresentaram maior sensibilidade aos efeitos do aquecimento. Em média, um aumento de apenas 0,5°C na temperatura provocou uma redução de cerca de 0,5% no carbono armazenado acima do solo nessas áreas.

As maiores árvores foram as mais afetadas
A taxa de mortalidade das árvores nas florestas tropicais da América do Sul aumentou de 1,8% para 3% ao ano durante períodos de El Niño. No entanto, entre árvores de porte médio e grande, com mais de 20 cm de diâmetro, esse índice chegou praticamente a dobrar.

As árvores maiores que possuem madeira menos densa apresentaram uma mortalidade significativamente superior quando comparadas às árvores menores e às espécies com madeira mais resistente. Segundo os pesquisadores, esse comportamento está relacionado à falha hidráulica: a forte retirada de umidade pela atmosfera pode interromper a coluna de água existente no interior da árvore, causando uma ruptura semelhante ao rompimento de uma corda submetida a muita tensão.

Por que 2026 preocupa
O aviso atual ultrapassa os registros conhecidos até hoje. Em nenhum outro momento um evento de El Niño teve início com os oceanos apresentando níveis tão altos de aquecimento e as temperaturas atmosféricas já em patamares tão elevados. Além disso, nas últimas três décadas, as áreas de transição da Amazônia registraram algumas das maiores temperaturas e os índices de aquecimento mais acelerados já observados nas regiões tropicais.

Quando uma alteração climática de grande intensidade acontece antes de a floresta conseguir se recuperar dos impactos sofridos nos anos anteriores, sua estrutura natural já se encontra enfraquecida. A união desses elementos aumenta a possibilidade de redução da cobertura vegetal e liberação de carbono em proporções nunca observadas.

“O futuro da Amazônia depende disso – e o nosso também”, concluem os pesquisadores no artigo publicado no The Conversation.

Fonte: Olhar Digital

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