Por que a China está desviando alguns dos maiores rios da Ásia

O governo da China construiu o maior projeto de desvio de água do mundo, sendo que o trajeto mais ambicioso e perigoso ainda está por vir

Mesmo contando com alguns dos maiores rios do mundo, além de enormes reservas de água presentes em geleiras e áreas montanhosas, a China enfrenta um desafio importante: a distribuição desigual desse recurso. Enquanto o sul e a região central concentram rios volumosos e altos índices de chuva, o norte reúne algumas das principais cidades do país, mas convive com a falta de água.

Esse cenário acontece porque localidades como Pequim e Tianjin passaram por um crescimento acelerado nas últimas décadas. A expansão populacional, o avanço da indústria e o aumento da produção agrícola fizeram com que a demanda por água ultrapassasse a disponibilidade natural dessas regiões. Para lidar com esse problema, o governo chinês decidiu investir em uma solução sem precedentes.

Assim surgiu o Projeto de Transferência de Água Sul-Norte (SNWTP, na sigla em inglês), reconhecido como uma das maiores obras de engenharia hídrica já realizadas no planeta. A iniciativa transporta água das áreas mais úmidas do sul para as regiões secas do norte por meio de uma ampla estrutura composta por canais, túneis, reservatórios, barragens, tubulações e estações de bombeamento.

Na prática, essa rede interliga quatro importantes bacias hidrográficas, cruza seis províncias e fornece água para centenas de milhões de habitantes. O sistema também abastece grandes polos urbanos e industriais, tornando-se um elemento essencial para garantir a segurança hídrica da China.

Um país rico em água, mas com distribuição desigual
Mesmo reunindo cerca de 20% da população do planeta, a China conta com apenas aproximadamente 6% das reservas mundiais de água doce. Além disso, esses recursos naturais estão espalhados de maneira bastante desigual pelo território.

Quase metade dos habitantes chineses vive na região norte, que também concentra uma parcela significativa da produção agrícola nacional. Entretanto, essa área dispõe de apenas cerca de 20% da água doce existente no país.

O contraste entre diferentes regiões chama a atenção. Enquanto o Tibete possui grande disponibilidade de água por habitante, cidades como Tianjin registram níveis classificados como de escassez hídrica extrema. De acordo com os critérios da Organização das Nações Unidas (ONU), a disponibilidade inferior a mil metros cúbicos de água por pessoa ao ano já é considerada situação de escassez. Em algumas regiões da China, esse índice é ainda menor.

As obras do projeto tiveram início em 2002 e, atualmente, o sistema funciona por meio de duas grandes rotas de transferência de água.

A rota leste aproveita parte do tradicional Grande Canal da China e faz a captação de água no rio Yangtzé. A partir daí, o sistema percorre mais de mil quilômetros até fornecer abastecimento para cidades do norte, entre elas Tianjin. Como o trajeto possui áreas em aclive, grandes estações de bombeamento são responsáveis por elevar a água ao longo do caminho.

A rota central, por sua vez, capta água do rio Han, um dos principais afluentes do Yangtzé. Nessa estrutura, a água percorre aproximadamente 1.270 quilômetros utilizando a força da gravidade, o que diminui o gasto energético durante o transporte.

Somadas, as duas rotas já transferiram dezenas de quilômetros cúbicos de água desde o início de suas operações. O volume movimentado é superior, inclusive, à capacidade total de alguns dos maiores reservatórios artificiais do planeta.

Atualmente, uma parcela expressiva do abastecimento de Pequim depende diretamente desse sistema. Estimativas apontam que cerca de 70% da água consumida na capital chinesa é fornecida pela rota central.

Uma ideia antiga que virou realidade
Apesar de o projeto utilizar tecnologia moderna, a proposta de transportar água entre diferentes partes da China não surgiu recentemente.

O país possui uma tradição de milhares de anos na construção de canais destinados à irrigação e ao transporte. Um exemplo é o Grande Canal, cuja construção começou há mais de dois mil anos e que ainda hoje integra parte da estrutura utilizada pelo sistema atual.

A ideia de direcionar água das regiões do sul para o norte ganhou impulso em 1952, quando Mao Tsé-Tung defendeu a redistribuição dos recursos hídricos como forma de diminuir as diferenças entre as regiões chinesas.

Anos mais tarde, com o avanço da engenharia e das tecnologias disponíveis, essa proposta saiu do papel e deu origem a um dos maiores projetos de infraestrutura hídrica do mundo.

Benefícios apontados pelo governo
Segundo o governo chinês, o sistema proporcionou avanços relevantes no abastecimento das regiões localizadas no norte do país.

Além de aumentar a disponibilidade de água para milhões de habitantes, o projeto também teria contribuído para a recuperação dos aquíferos subterrâneos, fortalecido a produção agrícola e estimulado o crescimento econômico de áreas historicamente afetadas pela escassez hídrica.

Outro foco importante da iniciativa foi elevar a qualidade da água. Durante décadas, diversos rios da China foram fortemente impactados pela poluição decorrente da expansão industrial.

Como parte das medidas adotadas, o governo implantou estações de tratamento ao longo das rotas de transferência e determinou o fechamento ou a realocação de centenas de indústrias que lançavam resíduos nos rios. Especialistas avaliam que essas ações resultaram em melhorias expressivas na qualidade da água em diferentes pontos do sistema.

Os impactos ambientais e sociais
Apesar dos resultados positivos apontados pelo governo, o projeto também é alvo de diversas críticas. A construção de reservatórios levou ao deslocamento de centenas de milhares de pessoas. Apenas a expansão do reservatório de Danjiangkou obrigou cerca de 350 mil moradores a deixarem suas residências.

Pesquisadores também destacam possíveis impactos ambientais, como mudanças nos ecossistemas locais, alterações no curso natural dos rios e problemas relacionados à entrada de água salgada em aquíferos próximos ao litoral.

Outro aspecto frequentemente citado por especialistas é que a retirada de grandes quantidades de água das regiões fornecedoras pode gerar novos desafios justamente nas áreas que antes possuíam maior disponibilidade hídrica.

Na prática, parte da solução encontrada para reduzir a escassez no norte do país pode acabar diminuindo a oferta de água em outras regiões da China.

Resolver um problema criando outro
Parte dos pesquisadores afirma que o maior desafio enfrentado pela China não está apenas na escassez de água, mas também no elevado nível de consumo. A irrigação agrícola representa uma parcela significativa da demanda hídrica do país e, em muitos casos, métodos pouco eficientes acabam desperdiçando grandes volumes de água.

Por esse motivo, especialistas defendem que medidas voltadas para conservação, modernização dos sistemas de irrigação e uso mais eficiente dos recursos poderiam diminuir a necessidade de projetos de infraestrutura dessa dimensão.

Nos últimos anos, o próprio governo chinês passou a implementar políticas voltadas à economia de água. Ainda assim, segue investindo na ampliação do sistema de transferência hídrica.

Inclusive, novas intervenções já precisaram ser realizadas para corrigir impactos gerados pelo projeto inicial. Em algumas regiões, canais adicionais estão sendo construídos para assegurar o abastecimento das comunidades localizadas abaixo dos reservatórios que alimentam a principal rede de distribuição.

A polêmica rota pelo Tibete
Mesmo com duas rotas já operando, as autoridades chinesas avaliam que o fornecimento de água para o norte do país ainda não atende completamente à demanda. Por esse motivo, está em estudo a construção de uma terceira ligação, chamada de rota ocidental. O projeto pretende transportar água do Planalto Tibetano até a bacia do Rio Amarelo, reforçando o abastecimento das áreas mais áridas da China.

A execução dessa etapa representa um enorme desafio de engenharia. O planalto situa-se entre 3 mil e 4,5 mil metros de altitude, possui um terreno altamente montanhoso e apresenta forte atividade sísmica. A obra exigiria a construção de centenas de quilômetros de túneis, grandes estações de bombeamento e barragens que estariam entre as mais elevadas do mundo.

Além dos obstáculos estruturais, fatores como o derretimento das geleiras, o risco constante de terremotos e as condições climáticas severas tornam o empreendimento ainda mais complexo.

Preocupação internacional
O Tibete é frequentemente chamado de “caixa-d’água da Ásia”, pois é a região de origem de diversos rios fundamentais que seguem em direção à Índia, Bangladesh e outros países do continente. Por isso, qualquer proposta de redirecionar parte desse volume hídrico costuma gerar preocupação entre as nações vizinhas.

Embora o governo chinês nunca tenha confirmado oficialmente projetos para modificar o fluxo de grandes rios que atravessam fronteiras internacionais, algumas propostas apresentadas por pesquisadores chegaram a sugerir o transporte de grandes quantidades de água dessas bacias para o interior da China.

Essas ideias aumentaram a apreensão dos países localizados rio abaixo, que receiam uma possível redução na disponibilidade de água destinada à agricultura, produção de energia e abastecimento da população.

De acordo com especialistas, a ausência de maior transparência e de consultas com a comunidade internacional acaba intensificando a desconfiança em torno desses projetos.

Mudanças climáticas aumentam a incerteza
Outro elemento que pode afetar o funcionamento do sistema no futuro é o aquecimento global. O Planalto Tibetano vem registrando aumento acelerado das temperaturas, o que acelera o derretimento das geleiras responsáveis por alimentar diversos dos principais rios da Ásia.

Em um primeiro momento, esse processo pode elevar temporariamente a quantidade de água disponível. No entanto, a perspectiva de longo prazo é diferente: com a diminuição das geleiras, muitos desses rios tendem a perder vazão, reduzindo justamente o volume de água que sustenta o projeto.

Além disso, o avanço da desertificação em determinadas regiões surge como mais um obstáculo para a segurança hídrica do país.

Especialistas destacam que a China costuma enfrentar desafios ambientais investindo em grandes projetos de infraestrutura. Além da transposição de rios, o país aplica recursos na construção de megabarragens, programas de reflorestamento, técnicas de semeadura de nuvens para estimular chuvas e outras iniciativas de grande porte.

Para diversos pesquisadores, essa postura demonstra a confiança do governo no potencial da tecnologia para solucionar problemas naturais. Ao mesmo tempo, cresce a discussão sobre a importância de combinar essas intervenções com políticas de preservação ambiental, uso racional da água e proteção dos ecossistemas.

Enquanto isso, o SNWTP permanece como um dos maiores exemplos da engenharia contemporânea. Ao mesmo tempo em que amplia o acesso à água para milhões de pessoas, também evidencia os complexos desafios ambientais, sociais e geopolíticos envolvidos na redistribuição de um dos recursos mais essenciais do planeta.

Fonte: Olhar Digital

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