Ebola circulou por semanas no Congo antes de alerta global

Surto de Ebola ficou semanas sem identificação no Congo, enquanto variante rara se espalhava antes do alerta global da OMS

O vírus ebola já estava circulando há semanas na República Democrática do Congo antes de as autoridades confirmarem oficialmente o surto e de a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar uma emergência global de saúde pública. No momento em que o anúncio foi feito, já havia registros de centenas de casos suspeitos e dezenas de mortes em investigação.

De acordo com uma reportagem do The New York Times, a confirmação tardia ocorreu mesmo com o país mantendo sistemas de vigilância destinados à detecção precoce de surtos. Nos últimos anos, o Congo expandiu sua capacidade laboratorial e acumulou experiência no enfrentamento de epidemias anteriores de ebola, o que, em tese, deveria facilitar respostas mais rápidas.

Falhas na vigilância atrasaram resposta
As autoridades da província de Ituri, região central do atual surto, não teriam emitido alerta imediato quando os primeiros pacientes começaram a apresentar sintomas compatíveis com a doença. Além disso, há indícios de que amostras biológicas não foram encaminhadas com rapidez para Kinshasa, capital do país, onde são realizados exames mais avançados.

A variante detectada no surto foi a Ebola Bundibugyo, uma cepa menos comum do vírus. Na fase inicial da investigação, os equipamentos disponíveis em Ituri eram capazes de identificar apenas a variante mais frequente, conhecida como Zaire, o que levou a resultados iniciais negativos.

Posteriormente, com o envio das amostras para laboratórios em Kinshasa, as análises confirmaram a presença da variante Bundibugyo, permitindo a correta identificação do agente causador do surto.

OMS aponta atraso de semanas
A médica epidemiologista Marie-Roseline Belizaire, que atua na coordenação da resposta da OMS ao surto, declarou que o aviso oficial sobre a epidemia ocorreu com atraso. Segundo ela, em situações como essa, volumes elevados de casos costumam ser identificados mais rapidamente por equipes de saúde ou pela imprensa. “O alerta saiu muito tarde”, afirmou Belizaire.

A Organização Mundial da Saúde descreveu ainda uma “lacuna crítica de quatro semanas” entre o início dos sintomas no primeiro caso suspeito e a confirmação laboratorial do surto. De acordo com a entidade, profissionais de saúde podem ter inicialmente confundido os sinais da doença com outras patologias.

O The New York Times também relatou que quatro profissionais de saúde morreram em um intervalo de quatro dias no Hospital Geral de Referência de Mongwalu, evidenciando a gravidade da situação na região.

Região enfrenta dificuldades para conter avanço
Segundo médicos que participam da resposta local, o epicentro do surto está localizado em Mongwalu, uma cidade mineradora de ouro de acesso difícil durante o período de chuvas. A presença de grupos armados na região também complica o deslocamento de equipes de saúde e a execução de operações de controle epidemiológico.

O médico Bill Kanyenche, vinculado à organização congolesa GRACE, afirmou ao The New York Times que a declaração oficial do surto deveria ter ocorrido cerca de 30 dias antes. Ele relatou que mortes com sintomas compatíveis com a doença aconteceram sem que comunidades locais ou profissionais de saúde reconhecessem inicialmente o quadro como ebola.

A Organização Mundial da Saúde acrescentou que pessoas infectadas possivelmente viajaram e participaram de cerimônias fúnebres por pelo menos um mês antes da confirmação oficial do surto, o que pode ter contribuído para a disseminação da doença.

Variante rara preocupa autoridades
Atualmente, não existem vacinas nem tratamentos específicos disponíveis para a variante Ebola Bundibugyo. Além disso, os testes que podem ser utilizados em campo são considerados limitados, o que dificulta o diagnóstico rápido em regiões afetadas.

Jean Kaseya, diretor do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças, declarou estar em “modo de pânico” diante da gravidade da situação.

De acordo com o ministro da Saúde do Congo, a taxa de mortalidade da variante Bundibugyo pode alcançar até 50%. Historicamente, apenas outros dois surtos dessa cepa foram registrados: um em Uganda, em 2007, e outro na República Democrática do Congo, em 2012.

Fonte: Olhar Digital

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