Hantavírus, COVID, norovírus… Por que os navios de cruzeiro são tão suscetíveis a surtos de doenças?

Lugares fechados, má circulação de ar, e o compartilhamento de ambientes e objetos figuram entre os principais motivos para surtos em navios

No começo de maio, veículos de imprensa internacionais noticiaram um surto de infecção em um navio de cruzeiro: o hantavírus teria causado a morte de três passageiros a bordo do transatlântico holandês MV Hondius. Além da interrupção da viagem, o episódio também reforçou que esse não foi o primeiro caso de um surto viral registrado em embarcações de cruzeiro.

Durante o auge da pandemia de Covid-19, em 2020, mais de 600 passageiros e membros da tripulação tiveram diagnóstico positivo para o vírus a bordo do navio Diamond Princess. Diante disso, surge a dúvida: por que embarcações de cruzeiro acabam sendo tão vulneráveis à ocorrência de surtos de doenças?

O papel de um navio em um surto de micróbios

Um navio de cruzeiro pode ser comparado a um hotel flutuante: ele reúne centenas ou até milhares de pessoas convivendo por longos períodos, além de navegar entre diferentes países e, consequentemente, entrar em contato com múltiplas fontes potenciais de contaminação.

Somado a isso, os membros da tripulação entram e saem da embarcação com frequência, o que favorece a troca constante de microrganismos em ambientes compartilhados por muitos passageiros. Esses espaços incluem restaurantes, elevadores, piscinas, áreas de lazer, corredores, saunas, banheiros e salas de jogos, entre outros.

Ao reunir todos esses fatores, chega-se a um ponto central: navios de cruzeiro podem se tornar ambientes propícios para o surgimento e a disseminação rápida de surtos de doenças. Isso ocorre especialmente porque, apesar de grandes, essas embarcações ainda são menores e mais confinadas do que uma cidade, o que faz com que as pessoas a bordo convivam em proximidade muito maior do que estariam em uma área urbana.

Outro ponto preocupante é a ventilação. Em um transatlântico, a área mais aberta e arejada costuma ser o deck externo, onde os passageiros podem ter contato direto com o mar. Já a maior parte dos demais espaços é fechada e integrada em ambientes internos contínuos. Mesmo com sistemas de climatização e renovação de ar, a circulação pode ser mais limitada em comparação a ambientes abertos, o que favorece a concentração e a disseminação de microrganismos em situações de surto dentro desses espaços fechados.

Os casos do Diamond Princess e do MV Hondius ilustram bem como vírus — especialmente aqueles associados a doenças respiratórias — conseguem se espalhar com facilidade em ambientes de cruzeiro. No entanto, outros agentes infecciosos também têm histórico de surtos nesses navios, afetando principalmente o sistema gastrointestinal.

O norovírus, frequentemente apelidado de “vírus do vômito”, tornou-se recorrente em cruzeiros há décadas e ainda hoje aparece em surtos ocasionais. Esse microrganismo causa uma gastroenterite aguda, provocando sintomas como dores abdominais, febre, vômitos e diarreia aquosa, que podem durar até cerca de três dias.

Esse microrganismo tende a se espalhar com facilidade em ambientes fechados, como navios de cruzeiro, e pode permanecer viável por vários dias em superfícies de uso comum, como corrimãos, mesas de buffet, maçanetas, cadeiras, controles remotos, óculos de sol e outros objetos tocados com frequência. Infelizmente, em alguns casos, uma única pessoa infectada pode ser suficiente para desencadear uma cadeia de novas infecções em um curto período de tempo.

Atualmente, o vírus que vem ganhando destaque na mídia é o hantavírus, que, assim como a Covid-19, pode afetar o sistema respiratório. Sua transmissão ocorre quando partículas de urina, fezes ou saliva de roedores infectados se misturam a poeira ou resíduos secos presentes em superfícies. Ao serem inaladas por seres humanos, essas partículas podem levar ao desenvolvimento da hantavirose.

Os sintomas incluem febre alta, dor de cabeça e dores musculares intensas, podendo evoluir rapidamente para falta de ar, choque cardiopulmonar e acúmulo de líquido nos pulmões.

Além disso, é importante considerar que cruzeiros geralmente acontecem em períodos de verão, quando as temperaturas são mais elevadas. Nessa época, diversas doenças também podem estar em fase de incubação. Isso significa que, enquanto muitas pessoas aproveitam atividades como piscinas e áreas externas, um indivíduo já pode estar infectado e, mesmo antes de apresentar sintomas, acabar transmitindo o agente infeccioso para outras pessoas.

Essa situação torna muito mais difícil identificar os primeiros casos de infecção; e quanto mais tempo leva para reconhecer o agente infeccioso e sua forma de transmissão, maior é a chance de disseminação e o número de pessoas contaminadas.

A pandemia de coronavírus, iniciada em 2020, mudou profundamente a história recente do mundo. Os navios de cruzeiro que retomaram suas operações após esse período passaram a adotar medidas sanitárias mais rigorosas para operar dentro das normas exigidas.

Mesmo assim, novas crises de saúde pública ainda podem surgir a bordo desses transatlânticos.

É possível mitigar os riscos de contaminação enquanto estiver a bordo?

A proteção de passageiros em cruzeiros começa ainda antes do embarque. É importante verificar se a companhia marítima adota políticas claras de vigilância sanitária, registro de casos, limpeza adequada e isolamento de pessoas infectadas.

Também é essencial manter a carteira de vacinação atualizada e, especialmente no caso de idosos, gestantes ou pessoas com doenças pré-existentes, buscar orientação médica antes da viagem. Além disso, contratar um seguro viagem que cubra interrupções por questões de saúde pode ajudar a reduzir problemas em situações inesperadas.

Já dentro da embarcação, uma das formas mais eficazes de prevenir infecções gastrointestinais, como as causadas pelo norovírus, continua sendo a higienização frequente das mãos com água e sabão.

Embora o álcool em gel seja um complemento útil, ele não substitui a lavagem correta. Caso surjam sintomas, o mais indicado é evitar locais compartilhados e áreas de alimentação coletiva, reduzir o contato com outras pessoas e informar imediatamente a equipe médica do navio, em vez de manter a rotina normalmente.

Fonte: Olhar Digital

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