Ondas de 3 metros em Titã: modelo revela paraíso do surf extraterrestre

Ferramenta batizada de PlanetWaves simula como ventos, gravidade e tipo de líquido interagem em outros mundos

Se você deseja surfar fora do nosso planeta, a lua Titã, de Saturno, pode ser o lugar ideal. Uma ferramenta recém-criada, chamada PlanetWaves e desenvolvida por cientistas do MIT, indicou que a maior lua de Saturno possui condições propícias para a formação de ondas enormes, mesmo com ventos fracos. Enquanto na Terra uma leve brisa quase não mexe na água, em Titã ela pode gerar ondas de até 3 metros de altura.

O segredo está na física
Modelos anteriores que buscavam prever ondas em outros planetas consideravam apenas a gravidade. O PlanetWaves vai além: ele leva em conta a pressão atmosférica, a densidade do líquido, sua viscosidade e a tensão superficial — a força que o líquido oferece contra a formação de ondulações.

“Esse foi o grande avanço deste projeto”, afirmou Una Schneck, doutoranda do MIT e autora principal do estudo, publicado no Journal of Geophysical Research: Planets.

A equipe ajustou o modelo usando 20 anos de dados de boias no Lago Superior, na fronteira entre EUA e Canadá, conseguindo reproduzir as medições com alta precisão. Com a ferramenta validada, os pesquisadores passaram a aplicá-la em outros mundos.

O paraíso dos surfistas espaciais
Titã é o único outro objeto no Sistema Solar conhecido por possuir lagos e mares líquidos em sua superfície, essa informação foi obtida pela sonda Cassini-Huygens. No entanto, não espere nadar: o líquido é composto por hidrocarbonetos como metano e etano, que permanecem líquidos devido às temperaturas extremamente baixas: -179°C.

A gravidade fraca de Titã (apenas 14% da gravidade da Terra) e a leveza do líquido fazem com que ventos fracos gerem ondas gigantes. “Se você estivesse na borda desse lago, talvez sentisse uma leve brisa, mas veria grandes ondas se aproximando, algo inesperado na Terra”, afirmou Schneck.

Essa descoberta também pode ajudar a resolver um enigma: ao contrário da Terra, onde rios criam deltas ao alcançar o mar, os lagos de Titã possuem quase nenhuma formação desse tipo. “Será que as ondas têm algo a ver com isso?”, questiona Taylor Perron, do MIT.

Para futuras expedições que planejam enviar sondas para flutuar nos lagos de Titã, entender o tamanho das ondas é crucial. “É necessário desenvolver uma tecnologia capaz de suportar a força das ondas”, explicou Schneck.

O que mais o PlanetWaves revelou
A equipe aplicou o modelo a outros mundos:

  • Marte: bilhões de anos atrás, tinha água líquida e uma atmosfera mais espessa. Ventos fracos já geravam ondas. Com a perda da atmosfera, seriam necessários ventos muito mais fortes para o mesmo efeito;
  • LHS 1140b: uma super-Terra na zona habitável com até 19% de sua massa em água. Como a gravidade é maior que a da Terra, as ondas seriam bem menores para a mesma velocidade do vento;
  • Kepler-1649b: um mundo quente como Vênus, que pode ter lagos de ácido sulfúrico — um líquido duas vezes mais denso que a água. Seriam necessários ventos fortes apenas para criar ondulações;
  • 55 Cancri e: um planeta coberto por lagos de lava, com gravidade maior que a da Terra e lava viscosa. Para causar uma simples ondulação, seria preciso um vento de furacão, na ordem de 130 km/h.

O PlanetWaves, por enquanto, é apenas uma ferramenta de simulação. Mas, quem sabe no futuro, alguma sonda consiga confirmar se as ondas de Titã são tão propícias para o surfe quanto os modelos indicam.

Fonte: Olhar Digital

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